Notícia publicada no jornal PÚBLICO a 28/Março/2001 - Secção Local Lisboa

Galopim de Carvalho Apela ao Governo para Museu - Pegadas continuam à espera em Carenque

Por FRANCISCO NEVES
Quarta-feira, 28 de Março de 2001

Oito anos após túnel salvador, as pegadas de dinossauros continuam esquecidas em Carenque
O director do Museu Nacional de História Natural está em campanha pela concretização de um pólo museológico que dê utilidade pública à jazida de pegadas de dinossauros de Carenque, no concelho de Sintra. O conjunto com 95 milhões de anos, existente no lugar de Pego Longo, foi protegido, há cerca de oito anos, pela construção de um túnel que evitou que a CREL (Circular Regional Exterior de Lisboa) atravessasse as pegadas.

Na altura, estes vestígios foram cobertos com uma tela para evitar a sua degradação. A decisão salvadora do último Governo de Cavaco Silva, de construir o túnel da CREL, sob as pegadas, custou mais de um milhão e meio de contos, mas nem por isso se fez mais alguma coisa para tornar conhecido o geomonumento de Carenque. Posteriormente, foi apresentado à Câmara de Sintra o projecto de arquitectura do museu que permitira a visita e interpretação do recinto. "Tratou-se de um estudo prévio que não teve o parecer do Instituto de Conservação da Natureza (ICN), nomeadamente devido a volumetrias que violavam o Plano Director Municipal", disse o vereador da Cultura da Câmara de Sintra, Rui Pereira. Segundo Galopim de Carvalho, a obra proposta, da autoria do arquitecto Mário Moutinho, já foi reformulada de modo a responder às objecções apresentadas, mas o vereador sintrense afirma que tal versão ainda não será do conhecimento do instituto. A obra, acrescentou, não está sujeita a licenciamento camarário, por pertencer ao Estado, mas deverá ainda recolher diversos pareceres, como o do ICN, antes de ser proposta à apreciação municipal. O estudo para o chamado Parque Cretácico de Pego Longo prevê um edifício de exposições, um jardim botânico e um jardim de minerais e um poço para visualização das idades geológicas da Terra.

"A Câmara de Sintra manifesta interesse na concretização do museu, mas não tem dinheiro para suportar esse encargo, da ordem dos 500 mil a 700 mil contos, e possivelmente terá problemas mais urgentes a resolver", diz o professor Galopim de Carvalho. "Estamos solidários com o projecto do professor, mas em termos financeiros é um passo demasiado comprido para a nossa perna", afirma Rui Pereira. Face a este constrangimento, o paleontólogo acaba de endereçar ao Presidente da República, primeiro-ministro e diversos membros do Governo - ministros da Educação, do Ambiente e da Ciência e Tecnologia, e secretários de Estado da Juventude e do Turismo - uma carta pedindo o seu apoio ao projecto para as pegadas de Carenque.

"O Museu de História Natural não tem autonomia administrativa nem estrutura para conseguir directamente o financiamento da obra. Por isso, contactei com responsáveis governamentais que têm alguma relação com o monumento natural, que pode tornar-se num local de grande interesse pedagógico, científico e turístico", disse Galopim de Carvalho ao PÚBLICO.

A actual degradação da jazida de Carenque - diz ainda o docente da Universidade de Lisboa numa carta dando conta da sua iniciativa junto do Governo - "é algo de muito reprovável, pelo que não poderão deixar de responder os responsáveis da administração".