Notícia publicada no jornal PÚBLICO a 6/Dezembro/2000 - Secção Local Lisboa

Cascais lança projecto para Poço Velho
Grutas Transformam-se em Museu

Por LUÍS FILIPE SEBASTIÃO
Quarta-feira, 6 de Dezembro de 2000

A Câmara de Cascais vai musealizar as grutas do Poço Velho. Este importante monumento natural, cuja utilização remonta ao período do Neolítico (6000-3000 a.C.), encontra-se classificado como imóvel de interesse público, mas a zona de protecção envolvente tem sido devorada pela pressão imobiliária.

As grutas situam-se na Rua Carlos Ribeiro, por trás do edifício São José. As duas entradas do monumento mal se vêem, tapadas por construções e pelo parque de estacionamento. Os "graffitis" nas paredes dos acessos também não ajudam ao reconhecimento daquela que é uma mais antigas estações arqueológicas do país.

Como refere o estudo prévio para a musealização das grutas - recentemente aprovado pelo executivo camarário -, além da "usurpação, por parte do sector imobiliário, da própria zona de protecção", a degradação das grutas resulta também da elevada pressão rodoviária na área envolvente, por via do parqueamento e da "poluição e trepidação provocadas pela circulação dos veículos motorizados".

A degradação não é, porém, só de agora. Testemunhos de 1895 atestam que, à época, as grutas já então se encontravam votadas ao abandono e apresentavam vestígios de vandalismo. Acções que, para lá da delapidação do espólio original, provocaram alterações morfológicas e biológicas do local, com a ruptura de estalactites e outras formações e o desaparecimento de colónias de morcegos.

As duas entradas das grutas estão ligadas por um labirinto de galerias freáticas, com cúpulas e chaminés. Mas o que distingue estas formações, originadas por acção da água sobre os calcários do período Cretácico? De acordo com o primeiro volume de "Roteiros da Arqueologia Portuguesa", as grutas naturais do Poço Velho foram utilizadas como necrópole entre o Neolítico Final e o Calcolítico (2500 -1500 a.C). A sua ocupação prolongou-se pela Idade do Bronze e pelo período visigótico. Do espólio exumado, exposto nos museus dos Serviços Geológicos de Portugal e dos Condes Castro Guimarães (Cascais), abundam cilindros de calcário (ídolos), placas de xisto, elementos de adorno e utensílios variados.

O estudo prévio do futuro núcleo expositivo, elaborado pela Marca -Arquitectos Associados, prevê um novo edifício que se desenvolve encostado à parede superior das grutas. Num dos dois corpos do imóvel localizam-se a zona de exposições, a recepção e loja, um espaço multimédia e a entrada das grutas. O segundo corpo, mais pequeno, enquadra a saída norte das grutas. Num pequeno jardim interior poderá vir a ser instalado um bar.

O visitante encontrará expostas réplicas de objectos descobertos no local. Uma maqueta permitirá a apreensão da totalidade do sítio arqueológico. O espaço multimédia, com acesso à Internet, poderá também ser adaptado para realização de encontros. No interior da gruta, cuja lotação máxima será cinco pessoas ao mesmo tempo, prevê-se a simulação de um ou mais enterramentos pré-históricos.

O público-alvo do futuro espaço será a população estudantil, estando desaconselhada a visita ao pessoas com mais de 60 anos, crianças do pré-escolar ou do primeiro ciclo e pessoas com mobilidade reduzida ou com doenças do foro respiratório. Segundo a autarquia, está previsto que as obras para a construção do núcleo museológico arranquem em Outubro de 2001 e fiquem prontas em Abril de 2002.