Notícia publicada no jornal O Figueirense a 27/Setembro/2002

Cabo Mondego para classificar, Cimpor para encerrar

Com a classificação para breve das falésias do Cabo Mondego, chega ao fim uma das lutas de nomes conhecidos nas ciências lusas, como Galopim de Carvalho e Helena Henriques. Para os trabalhadores da unidade da Cimpor na Figueira da Foz, porém, é o início de um período que se adivinha difícil. Conheça os dois lados da questão, nas páginas seguintes.

Cabo Mondego proposto para Património da Humanidade
“No sector ocidental da Serra da Boa Viagem (Cabo Mondego) aflora uma espessa série de sedimentos, que registam, de forma notável, alguns dos principais acontecimentos da História da Terra. O intervalo de tempo registado situa-se aproximadamente entre os 180 e os 140 milhões de anos, isto é, refere-se ao Jurássico Médio e Superior.
Para o intervalo de tempo considerado, os marcadores estratigráficos normalmente utilizados em sedimentos marinhos são as amonites, um grupo extinto de moluscos cefalópodes, que se assemelhavam às actuais lulas e chocos. A ocorrência destes fósseis no Jurássico Médio do Cabo Mondego (flanco norte da Serra da Boa Viagem) é particularmente relevante, na medida em que, com base na sua distribuição vertical, se conseguem precisar as escalas do tempo geológico.
Os locais com registo sedimentar expressivo e com conteúdo elevado em amonites são locais com grande interesse para as Ciências da Terra, dado que testemunham com rigor um determinado intervalo de tempo da História da Terra. O Jurássico Médio do Cabo Mondego apresenta essa particularidade, sendo há muito considerado como referência, a nível internacional, nas discussões da especialidade.
O Jurássico Superior, cujos sedimentos assentam sobre o Jurássico Médio (sector sul da Serra da Boa Viagem), proporciona a observação de corpos sedimentares característicos de ambientes de transição (recifais, lacustres, deltaicos).
O registo sedimentar inclui uma grande variedade de estruturas sedimentares bem definidas, acompanhadas de associações diversificadas de fósseis típicos de diferentes ambientes (corais, equinodermes, bivalves, braquiópodes, gasterópodes, crinóides, restos vegetais). É justamente nesta posição estratigráfica (Oxfordiano) que, em 1884, foram reconhecidas várias pegadas de dinossaúrios terópodes, atribuídas a megalosaurídeos.
A História Geológica do nosso país durante os tempos jurássicos está inscrita nas falésias do Cabo Mondego. Preserve-a porque ela não se repete”.
Helena Henriques, geóloga

“É urgente impedir a delapidação”

É geóloga, e há muito que se bate pelo reconhecimento, nacional e internacional, do valor histórico-científico das falésias jurássicas do Cabo Mondego. Helena Henriques levou recentemente a questão que é a “menina dos seus olhos” ao “Sexto Simpósio Internacional do Jurássico”, em Itália, onde existe já um grupo de pressão para que a UNESCO reconheça este como um Património da Humanidade, atendendo à sua função de “referência de tempo à escala global”. A O Figueirense, Helena Henriques explicou que “é um pouco como um templo egípcio, só que este é milhões de anos mais antigo”.

Classificação do Cabo Mondego para breve

A classificação do Cabo Mondego como Monumento Natural poderá ser aprovada por decreto regulamentar muito em breve, sob proposta do Instituto de Conservação da Natureza (ICN). O parecer da autarquia ainda é aguardado, mas tem-se por muito provável que seja positivo, a fazer fé na sexta linha de força enunciada no programa político do actual presidente, Duarte Silva, na alínea subordinada ao tema “Um meio ambiente de excelente qualidade, para usufruto de todos”, onde pode ler-se que é intenção deste executivo “promover o encerramento da extracção de pedra nas falésias do Cabo Mondego”, bem como “desenvolver novas e insistentes pressões junto das entidades locais e nacionais responsáveis, no sentido de ser feito o ordenamento e reflorestação da Serra da Boa Viagem, transformando este espaço num verdadeiro Parque Natural do Concelho, salvando-o do lamentável estado de degradação em que ainda se encontra”. Depois de conhecido o parecer da autarquia, a proposta da classificação será então aprovada em Conselho de Ministros.

Classificar para preservar

Para Helena Henriques, a classificação é fundamental, sobretudo, para impedir “a delapidação” deste património comum de invulgar interesse e valor histórico-científico. “O emparedamento da zona frente ao restaurante Teimoso, por exemplo, a ser continuado pela linha da Marginal, significaria a destruição das falésias que restam”, afirma, acrescentando porém que “a vulnerabilidade face à urbanização, daquela área”, é outra, senão a principal, das preocupações. No que respeita à Cimpor, a geóloga confessa não acreditar que “constitua um perigo, já que não estão a explorar para a zona das falésias, mas apenas para o interior”. Perigosa foi contudo, outrora, a prática de “recuperar” as pedreiras tapando-as com lixo, o que “encobria o que está à vista e é útil para a investigação na área das Ciências Geológicas”, mas “felizmente”, esse procedimento foi suprimido.
Docente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, Helena Henriques preocupa-se também com o legado a deixar aos estudantes vindouros. Com a classificação, quer como Monumento Natural quer como Património da Humanidade (através da UNESCO), “fica garantida a preservação de um local, onde facilmente se compreendem questões como a evolução biológica e a configuração do planeta, ao longo de milhões de anos”. Para já, no que respeita à classificação pela UNESCO, não há mais do que um grupo de pressão, mas a concretizar-se, este seria um passo importante, uma vez que se pressupõe que o governo responsável por um Património da Humanidade diligencie no sentido da sua máxima conservação e protecção.

Uma luta quase tão antiga como os dinossáurios

Em 1996, a UNESCO declarou o Cabo Mondego como estratotipo do limiar Aaleniano-Bajociano, os dois subperíodos em que se divide o Jurássico médio, período ocorrido entre há 180 milhões e 151 milhões de anos. A razão da distinção é de fácil compreensão. Nas sucessivas camadas geológicas das falésias do Cabo Mondego são visíveis diversos elementos fósseis conservados: pegadas de dinossauros, amonites (cefalópodes fósseis de concha espiralada) e vegetais, pelo que qualquer descoberta ou metodologia de investigação só será validada após comparação com o Cabo Mondego, transformando este local num “marcador de tempo com valor global”. O caricato, porém, é que apesar do estatuto internacional, as falésias ainda esperam pela classificação de Monumento Natural nacional. Ministérios do Ambiente e da Economia têm ambos uma palavra a dizer numa situação que vem de trás. Os primeiros pedidos de classificação datam dos anos 70, e Helena Heniques declarou publicamente acreditar que é “a falta de cultura científica da população” que tem permitido “a inércia de quem manda”, um motivo aliado aos alegados “interesses económicos a que a Cimpor não é alheia”.

Porquê no Cabo Mondego

Os paleontólogos defendem que, há cerca de cento e cinquenta milhões de anos, a costa portuguesa tinha um aspecto bem diferente. Seria, então, constituída por lagoas e deltas de rios, que inundavam uma vasta região pantanosa, com águas pouco profundas, calmas e mornas. Devido às condições climatéricas, aqui se concentrava uma rica vegetação, que atraía os dinossauros, na sua maioria vegetarianos.
Mas estas características foram benéficas para a História ainda por outra razão. Elas criaram as melhores condições para uma fossilização duradoura dos animais mortos. A comprovar esta teoria, estão as centenas de achados fósseis de plantas, peixes, conchas, escamas, tartarugas, crocodilos e outros animais de menor porte, que frequentaram a região, nas épocas de ouro dos dinossauros, Jurássico Superior e Cretáceo. Por isso, toda a zona Oeste é hoje um verdadeiro santuário, que segundo os estudiosos deve ser alvo de uma preservação “total e imediata”. Impedir a construção clandestina, não vazar lixos, evitar a abertura de acessos mesmo até ao areal das praias, são algumas das medidas exigidas pelos defensores daquele património.

Cimpor desde 1800, pegadas (conhecidas) desde 1884

Data de 1884 a primeira referência conhecida de pegadas nas falésias do Cabo Mondego. Jacinto Pedro Gomes (JPG), ao elaborar um Relatório acerca das minas do Cabo Mondego, foi informado da presença de moldes de pegadas. Mostrou desenhos destas a B.Geinitz, que lhe disse deverem ser de dinossauro; Karl Zittel corroborou aquela opinião. Louis Dollo atribuiu-as a Ornitópodes.
Entretanto a Cimpor laborava no Cabo Mondego desde o início do século, contribuindo, em muito, sobretudo na que viria a ser a localidade dos Vais, para o desenvolvimento local.

Trabalhadores da Cimpor em risco

A instabilidade dos 63 trabalhadores da unidade da Cimpor do Cabo Mondego é evidente. Quando O Figueirense assomou à porta das instalações e se identificou, a pergunta “estão aqui por causa da classificação?” denunciou a preocupação que domina todos os que trabalham naquela centenária empresa. É que, para estas pessoas, por muito que a preservação do património histórico seja defensável, são os seus postos de trabalho que estão em causa. Têm receio que a “sua” Cimpor feche as portas e, com uma média de idades a rondar os 46 anos, não acreditam em facilidades. José de Sousa, o engenheiro director da Cimpor do Cabo Mondego, dá-lhes razão.
No ano 2001, uma reunião juntou os representantes de cada uma das partes interessadas pela provável classificação do Cabo Mondego como Monumento Natural: Institua-to da Conservação da Natureza (ICN), Ministério do Ambiente (MA), Direcção Regional do Centro do Ministério da Economia (DRCME) e Cimpor. “Os resultados da reunião não conheço”, admitiu José de Sousa, “mas em cia-ma da mesa esteve a análise da proposta para a classificação, que abrange parte do perímetro fabril da Cimpor”. Uma parte, aliás, muito considerável. “80 por cento”, reve-la, adiantando que “preocupado com a actividade da empresa”, tem feito o levantamento das reservas. O prognóstico não é dos melhores.

“Em menos de dois anos a Cimpor do Cabo Mondego fecha”

Com um plano de lavra de 25 hectares, a Cimpor está actualmente a explorar cerca de dez, situados fora da área de estratificação que os cientistas ambientais querem proteger. “Limitámos o perímetro das nossas explorações há já vários anos, quando nos apercebemos que havia interesse da comunidade científica naquela zona”. O problema é que a classificação abrange cerca de 80 por cento dos dez hectares em exploração, e não dos 25 para os quais a Cimpor está licenciada. E em termos práticos os 20 por cento que restam fornecem material para quanto tempo de laboração? “Não dará para mais de um ano e oito meses”. Com a classificação prevista para breve, não é muito o tempo de vida previsível da empresa.

“Não devia ser a Cimpor a suportar as indemnizações”

Com capacidade para uma produção de 200 mil toneladas de cal hidráulica, a Cimpor produz anualmente cerca de 60 por cento deste valor: 120 mil toneladas. “O mercado nacional absorve 200 mil, 60 por cento deste valor é assegurado pela Cimpor, 40 por cento pela produção da Secil”, afirma. Com outras unidades no país, mas sendo esta a única a produzir cal, José de Sousa acredita que a maior preocupação da empresa quanto aos efeitos da classificação diz respeito aos trabalhadores. “A Cimpor está hoje repartida por três continentes, tem a dimensão do plane-ta, move milhões. A unidade do Cabo Mondego é, para os responsáveis, o negócio dos tostões. Mas nunca foi filosofia da empresa explorar «até ao tutano», sem consideração pelos seus trabalhadores”, garante o engenheiro. A empresa, que já passou por privatizações e nacionalizações, que já teve centenas de funcionários e que foi um dos motores de desenvolvimento da sua área de influência, está agora reduzida a 63 funcionários efectivos, “mais 15 por cento cedidos por empresas de prestação de serviços”. Destes 63, a maior parte tem mais de 40 anos, e, para além das indemnizações, não podem esperar muito mais. Sobre os valores indemnes, José Sousa defende que “não deve ser a Cimpor a suportar estes valores, uma vez que não tem responsabilidade na classificação”. Em causa estão valores elevados, mesmo para uma “empresa de milhões”. Anualmente, os encargos sociais com os 63 trabalhadores efectivos e com os mais de 200 reformados e pensionistas, ascendem aos três milhões e 500 mil euros (cerca de 700 mil contos).

Cimpor deverá equacionar a exploração noutro ponto do país

Mas se o país absorve a totalidade da produção desta unidade da Cimpor, cuja maioria das acções foi recentemente adquirida em bolsa pela Teixeira Duarte, o que originará o seu fecho? “Julgo que a empresa terá interesse em manter a actividade, mas deverá equacionar a exploração noutro ponto do país onde haja matéria prima, como acontece com Souselas, onde existe uma fábrica de cimento desde 1962. “Deslocar os trabalhadores poderá ser uma possibilidade, mas a verdade é que a maioria tem aqui, na Figueira, a sua vida, a sua casa, a sua família”, pelo que não se vislumbra que haja grande interesse destas pessoas em equacionar uma mudança da área de trabalho. Para minimizar o impacto, o pessoal da Cimpor do Cabo Mondego tem vindo a ser reduzido, através de reformas antecipadas ou rescisões amigáveis. Muito do trabalho tem também sido adjudicado a empresas externas, como é o caso das limpezas e transportes de materiais. Mas, ainda assim, 63 pessoas correm o risco de ficar sem emprego. Para elas, as pegadas de dinossáurios têm muito pouco de atractivo.

Andreia Gouveia