Notícia publicada no jornal Diário de Coimbra a 6/Junho/2001

Não mexam nas Falésias

Galopim de Carvalho esteve ontem na Figueira da Foz para efectuar uma visita ao Cabo Mondego, em conjunto com um grupo de cientistas, membros da Associação de Geólogos do Sudeste da França, e participar no debate promovido pela autarquia sobre “a importância do Jurássico das Falésias do Cabo Mondego”

O professor catedrático, que deu a sua última aula na passada quinta-feira, prometeu continuar «nestas batalhas de salvaguarda do património», aproveitando para enaltecer, em declarações ao nosso Jornal, a «nova atitude» que se nota actualmente em Portugal, na defesa do património geológico.

Galopim de Carvalho considera que as autarquias «têm dado grandes exemplos ao poder central», e cita diversas câmaras que estão a musealizar sítios. No entanto, em relação ao Ministério do Ambiente e ICN (Instituto da Conservação da Natureza), manifesta-se crítico pela «ausência de respostas», garantindo que «parece uma entidade muda». Por isso, não tem dúvidas em considerar que existem duas marchas em Portugal no que diz respeito à preservação do património geológico, «a marcha relativamente rápida e promissora por parte do poder local e a marcha relativamente lenta, aparentemente desinteressada, por parte dos serviços que dependem do Governo Central».

Quanto à questão da classificação do Jurássico das Falésias do Cabo Mondego como “património da humanidade”, diz-se «consciente» dos interesses em jogo, mas alerta para a sua importância, quer do ponto de vista monumental, quer patrimonial, apesar de ter a noção de que uma classificação como património nacional «nos inibe de qualquer intervenção».

Daí o apelo a «uma solução de compromisso e de bom senso», que satisfaça os interesses dos que ali estão instituídos e da defesa do património.

Há meio século a defender o Cabo Mondego
Por seu lado, Helena Henriques defendeu que em relação ao passado do Cabo Mondego «há muita coisa mal feita e que é irreversível». Todavia, a professora da Universidade de Coimbra sublinha ser necessário «preocuparmo-nos com o que é que os proprietários do terreno e autoridades desejam em termos de urbanismo», apelando a que, «na melhor das hipóteses, não mexam em nada».
René Mouterde, um padre da Universidade de Lyon, anda há mais de 50 anos a “pregar” o Cabo Mondego. Admirador e estudioso incondicional daquele espaço, recorda que ali estão espelhados mais de 25 milhões de anos de vida na terra, com fosseis «que permitem reconstituir a história da vida».
Por isso, dada a localização «excepcional» e porque o turismo «tem cada vez mais peso na economia de um país», sublinha que aquele local pode ajudar a projectar Portugal.