Entrevista publicada no Diário de Notícias em 30/Maio/2001

O senhor dos dinossáurios
Por Filomena Naves

Galopim de Carvalho dá hoje a sua última aula na Universidade de Lisboa. Na hora do balanço, o senhor dos dinossáurios fala de batalhas, de escritas, de um triste museu e de muitas alegrias.

Como é dar a última lição?
Há uma certa angústia, mas também satisfação. É um momento de balanço. Entrei para esta faculdade como assistente há 40 anos.

Angústia porquê?
O horizonte de vida já não permite fazer projectos com a duração dos que se fazem aos 30 anos. Sempre que me lanço num pojecto de dois, três anos, penso se vale a pena começá-lo. Por outro lado, não me sinto com a minha idade, o que reverte a favor de uma certa convicção de juventude que tenho.

A última lição é mais difícil do que a primeira?
Não. A primeira foi uma aula de cristalografia. Lembro-me que tinha de ler o nome dos 30 alunos e estava desejoso de que a lista não chegasse ao fim, porque tinha de começar a aula e não sabia como. Foi talvez a situação mais difícil que enfrentei. A última lição será feita com prazer. Comecei como assistente de cristalografia e termino em paleontologia. Fui assistente também de mineralogia, paleontologia, geomorfologia, geologia. Cultivei o eclectismo e isso reflectiu-se na minha intervenção cívica.

Esta aula vai ser muito diferente também no conteúdo.
Vou falar de geologia e cidadania, para defender a tese de que a geologia tem muito mais importância do que aquela que lhe tem sido dada no ensino básico e secundário em Portugal. A geologia não foi uma disciplina dignificada, apesar de estar na frente das conquistas científicas e tecnológicas. Falarei também dos aspectos culturais associados a esta disciplina, dos quais os nossos agentes de cultura andam muito afastados. Penso que há algo a mudar e vou falar da situação do nosso património geológico, do que tem sido alguma batalha e do que hoje é a resposta a esta nossa sementeira de 12 anos. Falarei, finalmente, do problema do Museu Nacional de História Natural, a minha maior derrota como profissional, como responsável, como professor, como geólogo e cidadão.

Uma derrota pessoal porquê?
Este museu ardeu há 23 anos e está como ficou. Desde 1992 que sou director do museu. Em 1997, apresentámos à universidade uma proposta de estatuto definitivo, mas até hoje ainda não houve resposta. Continuo a ser director de um museu virtual, que só tem paredes, um orçamento que não chega a uma dezena de milhar de contos, um quadro de pessoal quase todo em pré-reforma. Entraram no ano passado três pessoas novas, por simpatia da equipa reitoral. Esta é nossa situação. Todos estes anos tenho batalhado pela reedificação do museu e não tenho conseguido.

Onde encalha?
Não sei.

Batalha é uma das suas palavras recorrentes.
A vida é isso. Lutar por metas. Eu luto pelas coisas em que acredito. Pela valorização do património natural e pela causa do museu.

Que batalhas ganhou?
Muitas. Lembro-me muito da minha mãe, que ganhou todas as batalhas e conseguiu criar a situação familiar para que tivéssemos uma condição de vida melhor do que ela teve. A minha batalha mais gostosa foi evitar que a CREL destruísse as pegadas de dinossáurio de Carenque. E agora reacendi a batalha. Naquela altura a vitória consistiu em levar o Governo a considerar que era importante salvar as pegadas e a disponibilizar mais de um milhão de contos para fazer os túneis. Correu tudo muito bem, mas, desde 1997, não aconteceu mais nada.

Pelo meio houve outras lutas.
Houve várias. Conseguimos, por exemplo, salvar a Pedra Furada em Setúbal, um rochedo de génese ainda enigmática em pleno centro da cidade. Havia um projecto de urbanização que afogaria completamente o rochedo. O presidente da câmara foi sensível ao problema e classificou-o como património de interesse local.

As coisas em Portugal são demasiado lentas?
Demasiado. É triste e desconcertante. É quase à escala do tempo geológico. Eu, que devia estar habituado a essa escala temporal, não me conformo, porque nestas coisas funciono com a escala da física dos isósopos, que têm períodos de semivida de fracções de segundo. Não gosto de perder a oportunidade de fazer as coisas, porque a vida é curta.

O Museu Nacional de História Natural continua com as paredes no cimento, mas andou a semear a geologia pelo País.
Pelo País todo. E talvez por isso mesmo. Quando vi que isto nunca mais saía da situação das paredes vazias, virámo-nos para fora. Surgiu a questão de Carenque e apontámos para lá toda a nossa artilharia. Depois nunca mais parou e as autarquias têm tido aí um grande papel.

Para o grande público, a sua imagem está sobretudo ligada aos dinossáurios.
É verdade, não sendo sequer a minha especialidade. Mas hoje há um conjunto de jovens que já está a beneficiar da mediatização que dei aos dinossáurios.

Como aconteceu essa ligação aos dinossáurios?
Foi por causa de Carenque. Estávamos aqui encantados da vida, olhando para o umbigo, sem aqui vir ninguém fiscalizar se fazíamos bem ou mal, e apareceu o problema das pegadas de Carenque. Foram necessários anos para que o sítio fosse classificado. Não havia sequer legislação que enquadrasse essa classificação. Foi obra nossa conseguir que o ministo Carlos Borrego publicasse o decreto 19/93, de 23 de Janeiro, que rege o conceito de monumento natural. Depois as coisas sucederam-se naturalmente e nunca mais pararam.

A exposição dos dinossáurios-robôs também foi um momento marcante.
Trouxemo-la a Portugal por estratégia. Estávamos a tentar que a CREL não arrasasse as pegadas e tomámos essa decisão. Foi um sucesso de bilheteira e movimentou o País. Há histórias incríveis, relacionadas com essa exposição, que um dia contarei em livro.

E as gravatas de dinossáurios?
Aconteceu. Já tenho 43 e onde vou publicamente ponho sempre uma delas. No ano passado fizeram-me uma brincadeira, no departamento do ensino básico mediatizado do Porto, do Ministério da Educação, com um cartão de boas-festas que é um tiranossáurio com uma gravata de Galopins.

A escrita e os livros são outra das suas actividades e costuma dizer que a sua arma é a caneta.
Tenho uma vantagem, quase não durmo. Se me deitar às 11 da noite, às 3 e 30, 4 horas, já estou a pé. Há anos que é assim. As noites de silêncio passo-as a escrever. Vou bebendo café com leite. Quando chego aqui, às 9 horas, já tenho quatro horas de trabalho.

Que livros tem entre mãos?
Vou publicar três livros este ano. Sopas de Pedra II, sobre as rochas magmáticas, em Setembro, um outro com histórias, a que tinha dado o título de Sopas de Pão Molhado, mas que vou mudar porque já são sopas a mais. São histórias de passeios à senhora da asneira, com pegadas que não o são, peixes fósseis falsos, vértebras que são apenas pedras.

Também se dedica à ficção.
Já publiquei três livros de ficção. Este de cozinha tem alguma ficção, e aproveito para dar algumas das minhas receitas. Cozinhar é uma das formas como compenso o stress.

O que gosta mais de cozinhar?
Sou um apreciador de toda a cozinha portuguesa, mas só faço variações sobre cozinha alentejana. Gosto de cozinhar tudo, saladas ao sabor da minha loucura. Sou um fã do poejo, do coentro e da hortelã, das ervas aromáticas, do alho. Gasto toneladas de cebola, uso muito o pimento vermelho, transformo a sopas alentejanas em cremes e consomés muito vaporosos para o gosto de lisboetas. Aqui fica uma receita: com um ovo, azeite, alho e coentros, faz-se, com a varinha, um creme que se põe no fundo da terrina. À parte coze-se o peixe. Pode ser bacalhau, pescada, marisco ou amêijoas. Tira-se o peixe para fora e verte-se a água sobre o creme. Desfaz-se o peixe e junta-se ao caldo. Para decorar, cortam-se cubinhos muito pequenos de pimento vermelho, ovo cozido picado e pão frito em cubos. Não é uma açorda, mas tem os mesmos ingredientes.

O que vai fazer depois do museu?
Vou continuar a escrever, a colaborar com as autarquias e o museu, a fazer as conferências nas escolas e nas casas municipais.

Galopim de Carvalho
Geólogo

Natural de Évora, foi aprendiz de sapateiro, de carpinteiro e de ferreiro. Fez campismo, muitas vezes só com uma corda e uma manta, conviveu com pastores e considera-se um homem de acção, mas foi mau aluno até ser homem. "Nunca gostei da escola, achava-a uma prisão", diz. Na lição que hoje profere fará uma homenagem ao único professor do liceu que o marcou, Cassiano Vilhena, de Ciências Naturais. "Ensinou-me a gostar de saber, deixou cá a semente". Na universidade, em Lisboa, descobriu a geologia e nunca foi tão bom aluno. Destacou-se, foi convidado para assistente e continuou. É esse ciclo que hoje completa.

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